Folha de S.Paulo.
"No caso do Brasil, que assinou o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, essa é uma sinalização clara para a comunidade internacional". Além da questão política --e a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) está dando aval ao projeto brasileiro--, o vigia nuclear nacional tem muito a ver com o desenvolvimento científico. Afinal, a física dos neutrinos é ainda bastante nova e misteriosa.
"O detector é feito com um cintilador líquido. Os neutrinos que saem do reator nuclear, por serem pouco reativos, atravessam tudo. Eles chegam ao equipamento, interagem com os prótons que já estão lá e, depois de outras reações, geram pulsos luminosos", diz Dos Anjos. A energia dos espectros de luz, explica, é que será analisada.
"Isso é possível em teoria, por enquanto, porque podemos comparar os espectros já conhecidos, das misturas-padrão, com os que serão gerados. Além disso, esse detector permite medir a potência térmica real do reator e a taxa de neutrinos normalmente produzidos" (veja quadro acima).
No caso de Angra 2, cuja potência é de 1,4 gigawatts, a taxa de produção de neutrinos pode chegar a 1020 por segundo (o número 1 seguido de 20 zeros). Tanto pela mistura dos combustíveis quanto pelo monitoramento da potência, o uso de um reator nuclear para fins não-pacíficos, pelo menos em tese ainda, poderá ser flagrado.
Como a única coisa que interessa na construção da bomba é o plutônio, e ele se forma a partir da fissão nuclear, o roubo desse elemento de dentro da usina para o lugar onde se constrói a arma vai acabar aparecendo nos espectros obtidos no detector.
Haverá menos energia proveniente do plutônio nos dados científicos. A retirada das barras enriquecidas com plutônio, na maior parte das vezes, não pode ser feita sem o reator ser desligado. Essa queda de potência também ficará facilmente estampada nos espectros do "espião atômico".




