sábado, 10 de março de 2007

Primeiro vôo espacial tripulado completa 41 anos

Primeiro vôo espacial tripulado completa 41 anos

Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - A agência oficial de notícias russa Itar Tass divulgava em todo o mundo, no dia 12 de abril 1941, que o primeiro vôo espacial tripulado iria começar dentro de uma hora. Hoje, a façanha completa 41 anos. Na época, o mundo se dividiu em duas partes, metade perplexa e excitada com a notícia e a outra incrédula, diante do rádio.

A seqüência da notícia já se sabe. Yuri Alekseyevich Gagarin, astronauta russo (então soviético) deu a volta ao redor da Terra, a uma altura máxima de 327 quilômetros, em 1 hora e 48 minutos. De sua nave, a Vostok 1, Gagarin disparou frases até hoje lembradas pela humanidade, como: "A Terra é azul" ou "As estrelas não piscam".

Depois de ser lançado ao espaço, da base de Baikonur, hoje na República do Cazaquistão, Gagarin levou 108 minutos orbitando em volta do planeta e aterrisou na cidade de Sarátov.
Lá se vão 41 anos e até hoje ninguém conseguiu ultrapassar a altitude que ele chegou, numa nave de um só astronauta. Depois dele, mais de 400 astronautas foram ao espaço, número que dá a dimensão da era inaugurada por Gagarin.

Ele próprio previu e antecipou, na época, que muitos outros seguiriam seu caminho e conheceriam a imensidão do universo. Como que alheio ao evento político da época, que confrontava inclusive e, talvez, principalmente, na área espacial, as duas potências mundiais, Gagarin se emocionou ao ver a Terra.

Depois do vôo, o major da Força Aérea Soviética, com 27 anos de idade, ganhou fama e notoriedade, tão rápido como nenhum outro homem. Fez diversas viagens para relatar a façanha, conheceu muita gente. Foi também de sua autoria a frase que parecia arrefecer os ânimos de uma disputa nada amigável:

"A União Soviética deseja empregar seus conhecimentos da ciência em favor da humanidade". Mas o pano de fundo de sua aventura era algo bem mais político que suas frases inocentes, quase alienadas, como diriam cientistas políticos. Era o tempo da Guerra Fria e a corrida espacial foi o palco dos embates históricos entre Estados Unidos e a então União Soviética.

A ex-URSS ganhou alguns desses embates e o primeiro ficou "entalado na garganta" dos norte-americanos por algum tempo, se não até hoje. Enquanto o primeiro ministro Nikita Kruchev declarava, provocador, que "somos favoráveis a uma competição pacífica e nossos compatriotas já conquistaram vitórias.

Nosso caminho é justo e nesse caminho seremos vencedores", o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower apresentava uma justificativa insossa, afirmando que seu país não pretendia competir com nenhuma nação no domínio de satélite artificial.
Pouco depois, o embaixador americano na Organização das Nações Unidas (ONU), Adlai Stevenson reconheceu que os soviéticos haviam vencido no campo das pesquisas científicas espaciais.

Foi também a ex-URSS que lançou o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputinik 1, que significa Amigo Viajante. Ele foi lançado ao espaço no dia 4 de outubro de 1957. A ex-URSS obteve ainda as primeiras imagens da Lua, em 1959, com os vôos das naves Luna 2 e Luna 3.

Tantos êxitos, propagados pelo então primeiro ministro Nikita Kruchev, mexeram com os brios do povo americano, que deu o troco seguidas vezes depois.
A revanche não foi bem ao colocar o primeiro norte-americano em órbita terrestre, o que ocorreu em 1962, com John Glenn, que inclusive repetiu o feito em 2000, aos 62 anos de idade.

Os Estados Unidos ousaram e, depois de algumas tentativas frustradas, conseguiram pousar na lua a primeira nave e fazer com sua tripulação pisasse o solo lunar, trazendo material para pesquisa.
Os primeiros astronautas a pisarem na Lua, em 20 de julho de 1969, foram Neil Armstrong e Edwin Aldrin. Michael Collins, o terceiro componente da tripulação permaneceu no módulo espacial.

Só para adicionar mais um êxito na lista americana, não se pode esquecer de outro aniversário comemorado no dia 12. Há 21 anos, a nave espacial Columbia foi a primeira a voltar à Terra, aterrissando como um avião.
Talvez Gagarin tenha passado a imagem de alienação diante da corrida política das duas potências, mas acertou em cheio quando falou em paz.

Um dos pedidos feitos por ele, na época, foi para que a humanidade zelasse pela paz. Nada mais atual. A Guerra Fria acabou, mas a corrida armamentista deu lugar à disputa científica aparentemente pacífica.

Na semana passada, durante a Reunião do Sub-Comitê Jurídico da ONU para o espaço, em Moscou, o presidente russo Vladimir Putin, pediu a cooperação dos países-membros na luta pelo o uso pacífico do espaço, em conferência para mais de 250 delegados de cem países.

O tema fazia alusão à ambigüidade entre luta e paz : "O espaço sem armas, arena de cooperação pacífica no século XXI". O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, destacou que a maioria dos países apóia a iniciativa de aproveitar o espaço para a paz.

Não pôde dizer unanimidade, até porque não havia representantes norte-americanos e ingleses na reunião. Além disso, é público que os Estados Unidos querem implantar, no espaço, o projeto Nation Missile Defense (NMD), batizado de Guerra nas Estrelas.
O NMD nada mais é que um escudo a ser instalado no espaço aéreo norte-americano e no de seus aliados, capaz de destruir mísseis de longo alcance.

Concebido nos anos 80, durante o governo Ronald Reagan, o projeto, avaliam especialistas, provocará uma corrida armamentista e transformar a órbita terrestre num campo minado, com tecnologia bélica.
Evocando a arena de paz, Vladimir Putin presidiu na 6ª feira a cerimônia de comemoração dos 41 anos em que o primeiro homem ultrapassou a fronteira da Terra, sem qualquer tom de superioridade em relação aos feitos espaciais.

Até porque, hoje, a Rússia ainda é uma potência na área, apesar da derrocada do comunismo e de seu sistema econômico. Tanto que é o segundo maior colaborador do programa de construção da Estação Espacial Internacional, o maior laboratório espacial já projetado até hoje, com tripulação russa e americana.

Analisar a viagem de Gagarin, separada do contexto político, tanto da época como do atual, se faz necessário para entender o que ele fez e não é à toa que norte-americanos reconhecem a singularidade de seu êxito. "Ele nos chamou todos para o cosmos", disse Neil Armstrong sobre o astronauta russo.

Ninguém tinha dúvida sobre sua coragem, até porque nada se sabia sobre os efeitos de uma viagem espacial ao corpo humano. O próprio Kruchev quando recebeu a notícia de que a cápsula de Gagarin havia aterrissado perguntou se o cosmonauta estava vivo.

Yuri Gagarin nasceu em 1934, na parte central da Rússia. De família pobre, concluiu seus estudos na aldeia onde morava, Klúshino. Depois, foi para a escola de aprendizagem técnica, tornando-se fundidor de aço. Na escola média de Saratov freqüentou o clube aéreo e entrou na escola de aviação, sem apoio dos pais.

Quando soube do lançamento do Sputinik se sentiu atraído pelo cosmos e, quando o governo soviético anunciou o processo de seleção de astronauta, ele não dúvidas. Concorreu junto com 3 mil candidatos e passou por testes rigorosos depois de escolhido.

Por abrir as perspectivas da conquista espacial, seu êxito fez com que o governo fixasse a data como o Dia da Época Aeroespacial. Em 1962, para comemorar o primeiro aniversário da viagem, a equipe do Centro de Direcionamento de Vôos, cuja sede fica nos arredores de Moscou, preparou um filme documental chamado "Nosso Yuri".

A história é contada em forma de entrevista com o astronauta, onde ele expõe sua opinião sobre a conquista do espaço, fala de seus sonhos e planos futuros. Num dos trechos, ele mostra sua humildade, lembrando os que participaram do lançamento da Vostok e do colega norte-americano Glenn.

"Eu, como participante desta façanha, como testemunha do acolhimento entusiasmado deste grande evento pelo nosso povo, pelos povos de todo o Globo, gostaria nesta ocasião de manifestar os meus agradecimentos a todos aqueles que tomaram parte na criação do potente foguete que me levou à órbita.

No ano decorrido, a família de dois astronautas soviéticos - eu e Guerman Titov, cujo vôo durou 25 horas e possibilitou dar 17 voltar em torno da Terra - viu-se aumentada com o nosso colega norte-americano John Glenn. Estou seguro que a família dos astronautas vai aumentar de ano em ano".

As palavras parecem proféticas, mas talvez ele tivesse mesmo uma visão realista. Afinal, depois de desvendado o mistério de sobrevoar a órbita terrestre, o homem seguiria avançando mais, era sua análise. Mais palavras de Gagarin, no filme "Nosso Yuri", dão uma noção da grandeza de seu pioneirismo.

"Após 12 de abril de 1961, todos os acontecimentos, toda minha vida virou um evento único, indivisível. Tive encontros diferentes, tive a oportunidade de ver muitas coisas.
Durante um ano estive em 17 países, tive encontros maravilhosos com muita gente. Maravilhosos mesmo! Fiquei conquistado pelo seu entusiasmo, suas saudações, suas atitudes com o povo soviético, a quem se deve, no essencial, o primeiro vôo espacial pilotado".

Sua fama não foi breve. Mesmo sem fazer outra viagem ao espaço, num período de sete anos, o povo soviético ainda se lembrava de seu herói, que era o título de Gagarin para seus compatriotas. E eles provaram sua fidelidade enchendo as ruas de Moscou no dia de sua morte, em 27 de março de 1968.
Flâmulas com sua foto, vestido de uniforme militar, eram carregadas por toda parte. A URSS perdeu Gagarin num acidente aéreo experimental, que fazia parte de seus treinos para voltar à órbita.

Ele e o piloto-instrutor Vladimir Serioguin, estavam a bordo de um caça, quando 12 minutos depois da decolagem, e das comunicações de praxe com a torre, as mensagens cessaram. Um minuto depois, o caça havia caído. Horas depois, encontraram os destroços do avião e os restos mortais dos dois pilotos. As investigações não descobriram o motivo do choque.

Os equipamentos da aeronave funcionavam bem, não houve incêndio, nem explosão. Especula-se que algum obstáculo tenha surgido inesperadamente à frente do aparelho, precipitando uma manobra brusca que, por sua vez, causou o "vôo em parafuso".

O astronauta soviético veterano Vladimir Chatalov, certo dia, expressou o que significava para a Rússia a perda de Gagarin: "Yuri não está conosco. E mesmo assim ele continua presente em cada novo vôo. Milhares de pessoas participam hoje na exploração do cosmos.
E todas elas se lembram e se lembrarão sempre do nome do primeiro cosmonauta, Yuri Gagarin, Colombo do Universo". (Lana Cristina).

fonte: http://www.radiobras.com.br/ct/2002/materia_120402_7.htm - 14k

sexta-feira, 2 de março de 2007

Que é um planeta?

A definição de planeta aprovada pela IAU é baseada na arquitetura observada do Sistema Solar,
em que um pequeno número de corpos dominantes, os oito planetas, tem órbitas bem separadas,
em comparação aos enxames de asteróides, cometas e objetos do cinturão de Kuiper, que são menores

A controvertida definição recém-estabelecida de "planeta", que expulsou Plutão do rol planetário, apesar de falha, contempla os princípios científicos essenciais


Por Steven Soter.

A maioria de nós aprendeu desde cedo a definir como planeta corpos que orbitam uma estrela, brilham ao refletir a luz estelar e são maiores que um asteróide. Embora a definição pudesse não ser muito precisa, ela claramente categorizava os corpos que conhecíamos na época.

Mas na década de 90 uma série memorável de descobertas tornou-a insustentável. Além da órbita de Netuno, astrônomos encontraram centenas de mundos gelados, alguns bem grandes, ocupando uma região em forma de rosquinha denominada cinturão de Kuiper.

Nos arredores de outras estrelas, identificaram mais planetas, muitos dos quais com órbitas em nada semelhantes às que vemos no Sistema Solar. Além disso, descobriram anãs-marrons, que dificultam a distinção entre planetas e estrelas. E deparam com objetos similares a planetas à deriva na escuridão do espaço interestelar.

Essas descobertas deram início a um debate sobre o que realmente seria um planeta e levaram à decisão de agosto último da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês), a principal sociedade profissional de astrônomos.
Segundo os novos critérios, um planeta é um objeto que órbita uma estrela, é grande o suficiente para ter forma redonda e - o que é crucial - "limpou a vizinhança próxima à sua órbita".

De forma controversa, a definição atual tira Plutão do rol planetário. Alguns astrônomos dizem que vão se recusar a usá-la e organizaram um abaixo-assinado de protesto.

Esse não é apenas um debate sobre palavras. A questão é cientificamente importante. A nova definição de planeta reflete avanços na forma como entendemos a arquitetura do nosso e de outros sistemas solares.
Esses sistemas se originam por acreção: pequenos grãos se reúnem para formar grãos maiores, que então se juntam para estruturar pedaços ainda maiores, e assim por diante.

No final, o processo dá origem a um pequeno número de corpos maciços - os planetas - e a um grande número de corpos bem menores - os asteróides e os cometas, que representam detritos deixados pela formação dos planetas. Em resumo, longe de ser categoria arbitrária, "planeta" é uma classe objetiva de corpos celestes.

Quando a Terra Virou Planeta.

A reavaliação dos astrônomos a respeito da natureza planetária tem raízes históricas profundas. Os gregos antigos reconheciam sete luzes no céu que se moviam contra o padrão de estrelas de fundo: o Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Eles os chamavam planetes, ou errantes. Note que a Terra não está na lista. Durante a maior parte da história humana, a Terra não era tida como planeta, mas como o centro - ou fundação - do Universo. Depois que Nicolau Copérnico persuadiu os astrônomos de sua época de que o Sol, e não a Terra, ficava no centro, eles redefiniram os planetas como objetos que orbitam o Sol, colocando a Terra na lista e retirando o Sol e a Lua. Urano foi incluído em 1781 e Netuno em 1846.

Ceres, descoberto em 1801, foi inicialmente apresentado como o planeta perdido que preenchia o vão entre Marte e Júpiter. Mas os astrônomos começaram a ter dúvidas quando encontraram Pallas numa órbita similar, no ano seguinte. Diferentemente dos planetas clássicos, que os telescópios mostravam como pequenos discos, tanto Ceres quanto Pallas apareciam como meros pontos de luz.

O astrônomo inglês William Herschel propôs chamá-los de "asteróides". Em 1851, seu número havia aumentado para 15, e já era incômodo considerá-los todos planetas. Os astrônomos então decidiram listar os asteróides pela ordem de sua descoberta e não por sua distância do Sol, como faziam com os planetas - a aceitação de fato dos asteróides como membros de uma população distinta.

Se ainda contássemos asteróides como planetas, as crianças que estudassem o Sistema Solar teriam agora de decorar 135 mil planetas numerados. Plutão tem história similar.

Descoberto por Clyde Tombaugh em 1930, foi recebido por astrônomos como o tão esperado "Planeta X", cuja gravidade responderia por peculiaridades inexplicadas na órbita de Netuno. Plutão acabou sendo o menor não só de todos os planetas, mas também menor que sete de suas luas, incluindo a da Terra.

Outras análises revelaram que as peculiaridades na órbita de Netuno eram ilusões. Por seis décadas, Plutão foi uma anomalia singular na borda exterior do sistema planetário.

Assim como Ceres só começou a fazer sentido quando foi reconhecido como um exemplar da vasta população de asteróides, Plutão só se encaixou no momento em que os astrônomos viram tratar-se de um entre os inúmeros objetos do cinturão de Kuiper (KBOs, na sigla em inglês).

Foi então que começaram a reconsiderar se Plutão ainda deveria ser denominado planeta. Historicamente, revogar o status planetário de Plutão não seria sem precedentes; a lista de ex-planetas inclui o Sol, a Lua e os asteróides. A despeito disso, muitas pessoas defendiam que Plutão continuasse sendo considerado planeta, porque quase todo mundo havia se acostumado a pensar nele dessa forma.

A descoberta em 2005 de Eris (antes conhecido como 2003 UB313 ou Xena), um objeto do cinturão de Kuiper ainda maior que Plutão, trouxe a questão para a ordem do dia. Se Plutão é um planeta, então Eris também deveria ser, ao lado de vários potenciais KBOs de grande porte; alternativamente, se Plutão não é planeta, nenhum outro KBO poderia ser. Em que termos objetivos os astrônomos poderiam decidir?

Limpando o Ar.

Para evitar uma proliferação sem fim de planetas, Alan Stern e Harold Levison, do Instituto de Pesquisa Southwest, sugeriram em 2000 que um planeta poderia ser definido como um corpo menos maciço que uma estrela, mas grande o suficiente para que sua gravidade se sobreponha à sua rigidez estrutural e o deixe com forma redonda.

A maioria dos corpos com raio maior que algumas centenas de quilômetros satisfaz esse último critério. Os menores com freqüência têm forma irregular; muitos deles são basicamente montanhas gigantes.

Essa foi a definição escolhida no início de agosto pelo Comitê de Definição de Planeta da IAU, chefiado por Owen Gingerich, da Universidade Harvard. Ela teria mantido Plutão como planeta, mas ao custo de admitir potencialmente dezenas de KBOs e restaurar o status planetário de Ceres, o maior asteróide e o único sabidamente esférico.

Muitos astrônomos argumentaram que o critério da esfericidade seria inadequado. Em termos práticos, é muito difícil observar as formas de KBOs distantes, por isso seu status permaneceria ambíguo. Além do mais, asteróides e KBOs cobrem um espectro quase contínuo de tamanhos e formas.

Como devemos quantificar o grau de esfericidade que distingue um planeta? A gravidade domina esse corpo se sua forma se desviar de um esferóide por 10% ou 1%? A Natureza não fornece um vão desocupado entre formas redondas e não-redondas, então qualquer fronteira seria arbitrária.

Stern e Levison propuseram outro critério que, no entanto, leva a uma forma não-arbitrária de classificar objetos. Eles apontaram que alguns corpos no Sistema Solar são suficientemente maciços para engolir ou espantar a maioria de seus vizinhos imediatos.

Corpos menores, incapazes de fazer isso, ocupam órbitas instáveis e transitórias e têm um guardião peso-pesado que estabiliza suas órbitas. Por exemplo, a Terra é grande o suficiente para engolir ou afastar qualquer corpo que chegue perto demais, como um asteróide próximo.

Ao mesmo tempo, a Terra protege sua Lua de ser engolida ou afastada. Cada um dos quatro planetas gigantes comanda uma série de satélites. Júpiter e Netuno também mantêm suas próprias famílias de asteróides e KBOs (chamados Troianos e Plutinos, respectivamente) em órbitas especiais denominadas ressonâncias estáveis, onde uma sincronia orbital impede colisões com os planetas.

Esses efeitos dinâmicos sugerem uma forma prática para a definição de planeta: um corpo maciço o suficiente para dominar sua zona orbital, ao afastar objetos menores, incorporá-los por colisões, ou mantê-los em órbitas estáveis.

Segundo a física orbital básica, a probabilidade de um corpo maciço defletir um menor de sua vizinhança durante o tempo de vida atual do Sistema Solar é mais ou menos proporcional ao quadrado de sua massa (que determina o alcance gravitacional do corpo maciço por dada quantidade de deflexão) e inversamente proporcional ao período orbital (que governa a taxa em que os encontros ocorrem).

Os oito planetas, de Mercúrio a Netuno, têm probabilidade milhares de vezes maior de engolir ou afastar vizinhos pequenos que mesmo os maiores asteróides e KBOs (onde estão incluídos Ceres, Plutão e Eris). Mercúrio e Marte, por si mesmos, não têm massa suficiente para dissipar todos os corpos nas redondezas.

Mas Mercúrio ainda é grande o bastante para afastar a maioria dos objetos que cruzam sua órbita, e Marte tem influência gravitacional suficiente para defletir corpos em trânsito em órbitas instáveis próximas, incluindo algumas com períodos com exatamente um terço ou um quarto do de Júpiter. A gravidade do planeta gigante então completa a tarefa de ejetar esses objetos da vizinhança de Marte.

A habilidade de limpar a vizinhança depende de um contexto dinâmico específico; não é propriedade intrínseca do próprio corpo. No entanto, a grande diferença em poder dinâmico fornece uma maneira clara de distinguir planetas de outros corpos. Não precisamos de uma distinção arbitrária porque, pelo menos em nosso próprio Sistema Solar, a Natureza faz isso por nós.

Reis de seus Reinos
Um critério próximo a este foi proposto em 2004 pelo astrônomo Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). De acordo com sua definição, "qualquer corpo no Sistema Solar mais maciço que a massa total de todos os outros corpos em órbitas similares" é um planeta.

Para tornar isso mais preciso, sugeri substituir "órbita similar" pelo conceito de zona orbital. Dois corpos compartilham essa zona se suas órbitas em algum ponto se cruzam, se seus períodos orbitais diferem por um fator inferior a 10 e se eles não estão em ressonância estável. Para aplicar a definição, fiz um censo dos corpos pequenos conhecidos que orbitam o Sol.

A Terra, por exemplo, compartilha sua zona orbital com cerca de mil asteróides com mais de 1 km de diâmetro, a maior parte deles praticamente "recém-chegados" do cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter. Eles somam menos de 0,0001% da massa de nosso planeta.

A razão entre a massa de um corpo e a massa de todos os outros corpos que compartilham sua zona orbital pode ser abreviada por µ. Para a Terra, µ é cerca de 1,7 milhão. Na verdade, a Terra parece ter o maior valor de µ no Sistema Solar. Júpiter é 318 vezes mais maciço, mas compartilha sua zona orbital com um grupo maior de objetos.

Marte tem o menor valor de µ de todos os planetas clássicos (5.100), mas mesmo esse é bem maior que o valor de Ceres (0,33) ou Plutão (0,07). O resultado é assustador: os planetas estão num campeonato diferente dos asteróides e KBOs, e Plutão é claramente um KBO.

Esse argumento ajudou a persuadir a IAU a definir um planeta em termos de "limpar" sua vizinhança orbital. A IAU pode ter de emendar a definição para especificar que grau de limpeza qualifica um corpo como planeta.
Sugeri estabelecer um valor de corte para µ de 100. Ou seja, um corpo em nosso Sistema Solar é um planeta se responder por mais de 99% da massa de sua zona orbital. Mas o valor exato desse corte não é crítico. Qualquer valor entre 10 e 1.000 teria o mesmo efeito.

Um planeta é, portanto, um corpo que engoliu ou espalhou a maior parte da massa de sua zona orbital. A divisão clara de corpos em planetas e não-planetas revela aspectos importantes do processo que formou o Sistema Solar. Todos esses corpos cresceram de um disco achatado de gás e poeira em órbita do Sol primordial.

Na competição pela quantidade limitada de material bruto, alguns corpos venceram. Seu crescimento se tornou auto-reforçador, de modo que, em vez de um espectro contínuo de corpos de todos os tamanhos, o resultado foi um único corpo grande que dominou cada zona orbital.

Os corpos menores foram capturados pelos maiores, ejetados do Sistema Solar ou engolidos pelo Sol, e os sobreviventes se tornaram os planetas que vemos hoje. Os asteróides e cometas, incluindo os KBOs, são detritos que sobraram.

Nosso Sistema Solar está agora na fase final de limpeza. Os asteróides têm órbitas que permitem sua colisão entre si e com os planetas. O cinturão de Kuiper é remanescente da região exterior do disco de acreção original, onde o material era muito esparso para formar outro planeta.

Os planetas do nosso Sistema Solar têm órbitas que não se cruzam e, portanto, não podem colidir. Como os corpos dinamicamente dominantes, eles precisam ser poucos em número. Se outro planeta tentasse se colocar entre os existentes, perturbações gravitacionais rapidamente desestabilizariam sua órbita.

Uma situação similar parece verdadeira também para outros sistemas planetários. Até agora, pesquisadores encontraram cerca de 20 sistemas com mais de um planeta. Na maioria, os planetas têm órbitas sem intersecção, e nas três exceções as órbitas sobrepostas parecem estar em ressonância, possibilitando que os planetas sobrevivam sem colidir.

Todos os companheiros não-estelares de estrelas como o Sol têm grandes valores de µ e se qualificariam como planetas pelo critério de dominação dinâmica.

Fim de Jogo.

Planeta é o produto final da acreção de um disco ao redor de uma estrela. Essa definição se aplica apenas a sistemas maduros, como o nosso, em que a acreção já foi completada. Para sistemas mais jovens, os corpos maiores não são estritamente planetas, mas sim embriões planetários, e os corpos menores são denominados planetesimais.

A definição da IAU ainda inclui a esfericidade como critério para distinguir um planeta, embora estritamente falando isso seja desnecessário. O critério da limpeza orbital já diferencia planetas de asteróides e cometas. A definição também remove a necessidade de um limite superior de massa para separar planetas de estrelas e anãs-marrons.

As relativamente raras anãs-marrons que servem de companheiras de estrelas em órbitas próximas podem ser classificadas como planetas; diferentemente das anãs-marrons em órbitas maiores, elas devem ter se formado do disco de acreção.

Em resumo, a diferença entre planetas e não-planetas é quantificável, tanto na teoria quanto por observações. Todos os planetas do nosso Sistema Solar têm massa suficiente para ter engolido ou espalhado todos os planetesimais originais de suas zonas orbitais.

Hoje, cada planeta contém pelo menos 5 mil vezes mais massa que todos os detritos em sua vizinhança. Asteróides, cometas e KBOs, incluindo Plutão, em contraste, vivem em meio a grupos de corpos comparáveis.

Uma objeção considerável a qualquer definição desse tipo é o argumento de que objetos astronômicos deveriam ser classificados apenas por suas propriedades intrínsecas, como tamanho, forma ou composição, e não por sua localização ou contexto dinâmico.

Esse argumento ignora o fato de que os astrônomos classificam todos os objetos que orbitam planetas como "luas", embora dois deles sejam maiores que Mercúrio e muitos sejam asteróides e cometas capturados. Contexto e localização são claramente importantes.

De fato, a distância ao Sol determinou que corpos mais próximos se tornassem pequenos planetas rochosos e os mais distantes virassem planetas gigantes ricos em gelo e gases voláteis. A nova definição distingue planetas - que dinamicamente dominam um grande volume de espaço orbital - de asteróides, KBOs e embriões planetários ejetados, incapazes de exercer tal domínio.

Os oito planetas são os produtos finais dominantes do disco de acreção e diferem reconhecidamente das vastas populações de asteróides e KBOs.

A definição histórica dos nove planetas sem dúvida desempenha forte atração sentimental. Mas definições ad hoc criadas para proteger Plutão tendem a esconder do público as mudanças profundas que ocorreram desde o início da década de 90 na forma como entendemos a origem e a arquitetura do Sistema Solar.

Por 76 anos, nossas escolas ensinaram que Plutão era um planeta. Alguns argumentam que cultura e tradição são suficientes para deixar as coisas assim. Mas a ciência não pode se prender a enganos do passado. Para ser útil, uma definição científica deveria refletir a estrutura do mundo natural.

Podemos revisá-las quando necessário para refletir o melhor entendimento decorrente das novas descobertas. O debate na definição de um planeta irá fornecer a educadores um exemplo didático de como conceitos científicos não estão gravados em pedra, mas continuam evoluindo.

Uma "Missão" Delicada

Extraído de “Os Astronautas de Yaveh”, obra em que o autor aborda um tema polêmico e audacioso: a intervenção de extraterrestres em várias passagens do Velho e do Novo Testamento.

Poucos capítulos causaram-me tanto medo como o que agora começo. Medo de estar absolutamente equivocado. Medo, sobretudo, de ferir sensibilidades ou obscurecer idéias. Se o faço é, como já disse no prólogo, apenas porque meu coração o pede. Também porque pessoalmente estou convencido do que tentarei expor.

Algo Falhou


Até os exegetas e doutores mais retrógrados da Igreja têm clareza de que neste planeta "algo falhou". A espécie humana "entortou". Ou, quem sabe, "alguém" alheio ao nosso mundo encarregou-se de alterar o ritmo evolutivo. E a humanidade entrou numa desordem total.

Alterada pela morte e doenças. Presa da violência, da angústia e do egoísmo. Os planos primitivos da Suprema Sabedoria converteram-se em um simples papel molhado. Talvez tenha sido necessário reorganizar tudo. Traçar, por assim dizer, um novo "projeto de homem". Outro modelo.

Mas, como fazê-lo sem estridências? Como consegui-lo sem violentar a liberdade humana, premissa principal em toda criação divina? E o "alto comando", usando de novo as palavras que fluem espontaneamente de meu coração, optou por enviar alguém.

Um Ser suficientemente importante e preparado para causar um enorme impacto, não só no momento histórico e concreto de sua existência no mundo, mas também durante séculos e séculos. Alguém que, sutil, mas claramente, deixasse traçado o único caminho para endireitar o rumo dos homens da Terra.

E provavelmente, após muitos estudos e considerações, esse "alto comando" fixou uma data. E as "forças intermediárias" a serviço de Deus rastrearam o plano de norte a sul e de leste a oeste. Levaram sua informação e todos concordaram em relação a um povo e a uma região do mundo.

A "operação" deveria centrar-se nos homens que integravam uma raça ainda incipiente e que habitavam as terras entre o Nilo e o Tigre. A chamada "Crescente Fértil" e que, naquela época, faz 4.000 anos, constituía o maior centro cultural do globo.

É quase certo que nenhum outro canto do planeta oferecia aos "exploradores do espaço" um maior índice de progresso e florescimento. Que continente poderia reunir em tão poucos quilômetros quadrados um cruzamento tão esplêndido de culturas como as do Egito, Babilônia, Nínive ou Ur? A África? Evidentemente que não.

A Europa, sob o domínio das tribos bárbaras? A Atlântida – supondo-se que tivesse existido – fora tragada pelas águas do Oceano Atlântico há uns 8000 anos. Que restava então? Apenas a América. Mas ainda seriam necessários pelo menos outros dois mil anos para que no Novo Continente florescessem culturas tão promissoras como a maia, inca ou tolteca.

A Austrália, por outro lado, era uma zona tão isolada e primitiva que nem sequer foi levada em consideração. E na Ásia, com exceção da China, era também um território meio vazio e assolado por grupos tão belicosos quanto incultos.

Em honra da verdade, apenas o Próximo e Médio Oriente tinham adquirido um nível mínimo para acolher a tão importante "Enviado".E com o beneplácito do "alto comando" iniciou-se a "Operação Redenção".

O Primeiro Passo: Reunir Um Povo.

Seguindo talvez um lento, metódico, mas rigoroso "plano", os "comandos intermediários", em estreita colaboração com os "astronautas", foram selecionando e controlando determinados indivíduos e famílias. E assim começaram as aparições e "encontros" com os primeiros e antediluvianos patriarcas.

O objetivo número um do "alto comando" era conseguir o estabelecimento de um povo ou de uma comunidade suficientemente estável. E o mais importante: um núcleo humano virgem, sem idéias religiosas anteriores e alheio aos mil deuses que tiranizavam e desconcertavam as consciências dos egípcios, babilônios, etc.

Mas onde encontrar esse "elefante branco?" Efetivamente, tal povo não existia. Todos, em maior ou menor grau, estavam contaminados ou deformados. Não restou alternativa a não ser "criar" essa nação. E diz o Gênesis (12,1-3):

"Yaveh disse a Abraão: 'Sai de tua terra, e de tua pátria, e da casa de teu pai, e vai à terra que eu te mostrarei. De ti farei uma nação grande e te abençoarei. Engrandecerei teu nome; e sê tu uma bênção". Como sabemos, naqueles tempos, esses tipos de promessas e aparições de Yaveh, aconteciam com certa regularidade.

Fica evidente que os "astronautas", responsáveis pela materialização do "plano", queriam ir explicando a "seu" povo – o povo de Deus – porque o tinham eleito. Tal como avancei nas primeiras linhas deste ensaio, com lógica – e dentro da variadíssima escala de seres inteligentes que, tenho certeza, o Profundo criou – o "alto comando" encarregado da "Operação Redenção" deve ter elegido ou designado para os "encontros" com os homens de Israel "forças" ou "civilizações" relativamente próximas a nossa forma física.

A escolha de seres com formas físicas diferentes à humana apenas teria causado uma grande confusão: Se o "alto comando" pretendia impor àquele novo povo a idéia de um único Deus, era preciso fazê-lo com extrema simplicidade. E apareceram os "anjos".

Curiosamente, nas quase duzentas intervenções destes seres no Antigo e Novo Testamento, sempre são descritos como jovens de uma grande beleza e com roupagens ou vestes brancas e brilhantes. Suas formas, sem dúvida, são humanas e alguns, inclusive, chegam a passarem despercebidos entre os humanos.

Outros, como consta no Antigo Testamento, acompanham os patriarcas e comem com eles, como no caso de Abraão, ou os forçam a abandonar uma cidade, caso de Lot em Sodoma, depois de praticamente cegar a multidão que tentara violentá-los.

BENITEZ, J.J. – São Paulo: Mercuryo, 1992.

Consciência Quântica ou Consciência Crítica?

Roberto J. M. Covolan.

O advento da Física Quântica causou e tem causado enormes transformações na vida de todos nós. Nem sempre e nem todos estamos conscientes dos modos pelos quais uma revolução científica iniciada há cem anos pode nos afetar ainda hoje, mas provavelmente já ouvimos falar de seu impacto na evolução da própria Física e de toda controvérsia gerada pelas dificuldades conceituais de interpretação dos fenômenos quânticos.

Seus efeitos, porém, se estenderam para além da Física, com desdobramentos importantes na Química, com a teoria de orbitais quânticos e suas implicações para as ligações químicas, e na Biologia, com a descoberta da estrutura do DNA e a inauguração da genética molecular, apenas para citar dois exemplos.

Mesmo conscientes disso tudo, estaríamos preparados para mais essa: para a possibilidade de que a própria consciência possa operar com base em princípios ou efeitos quânticos? Pois é o que andam conjeturando algumas das mentes mais brilhantes de nosso tempo... e alguns franco-atiradores também.

A descoberta do mundo quântico, que tanto impacto teve nas ciências e tecnologias, ameaça agora envolver o "etéreo" universo da psique.

É preciso dizer desde logo que, na verdade, essa história não é assim tão nova. Desde o início de sua formulação, a Física Quântica apresentou uma dificuldade essencial: a necessidade de se atribuir um papel fundamental para a figura do observador (aquele que está realizando um experimento quântico).

Isso decorre do fato da teoria quântica ser de caráter não determinístico, ou seja, trata-se de uma teoria para a qual a fixação do estado inicial de um sistema quântico (um átomo, por exemplo) não é suficiente para determinar com certeza qual será o resultado de uma medida efetuada posteriormente sobre esse mesmo sistema.

Pode-se, contudo, determinar a probabilidade de que tal ou qual resultado venha a ocorrer. Mas, quem define o que estará sendo medido e tomará ciência de qual resultado se obtém-se com uma determinada medida é o observador. Com isso, nas palavras de E. P. Wigner, "foi necessária a consciência para completar a mecânica quântica".

A introdução de elementos subjetivos na Física Quântica, embora tenha sido defendida por físicos notáveis como von Neumann, além do próprio Wigner, é considerada altamente indesejável, tendo sido tentadas diferentes formulações para contornar esse problema que, aliás, é objeto de debate ainda hoje.

Contudo, não é tanto esse problema de caráter epistemológico que se quer focalizar aqui, mas sim a possibilidade de que certos efeitos quânticos possam fazer parte do funcionamento do cérebro e estejam envolvidos na manifestação da consciência. Porém, antes de ir direto ao ponto, convém apontar alguns aspectos da dinâmica cerebral mais aceitos atualmente.

De forma resumida, pode-se dizer que as descrições mais convencionais apontam a consciência como sendo uma propriedade emergente das atividades computacionais realizadas pelas redes de neurônios que constituem o cérebro. O cérebro é visto essencialmente como um "computador" para o qual as excitações neurais (correspondentes à atividade sináptica) seriam os estados de informação fundamentais (equivalentes aos bits).

A partir dessa visão, certos padrões de atividades neurais teriam estados mentais correlatos, sendo que oscilações sincronizadas no tálamo e no córtex cerebral produziriam uma conexão temporária dessas informações e a consciência surgiria como uma propriedade nova e singular, emergente da complexidade computacional das redes neurais atuando em sincronia.

Em geral, os enfoques quânticos não excluem o funcionamento do cérebro através de redes neurais (seria negar o óbvio), mas consideram que complexidade somente não explica tudo e situam efeitos quânticos como centrais para a descrição da emergência ou geração do eu consciente.

Aliás, alguns desses modelos negam que consciência seja uma propriedade emergente de redes neurais operando além de um certo nível crítico de complexidade, mas consideram que a dinâmica cerebral, na verdade, organiza e faz aflorar algo que já é uma propriedade intrínseca da natureza.

Há vários desses modelos e os mecanismos dos quais lançam mão são os mais diversos (...e os mais "viajados"). Infelizmente o espaço aqui disponível não é suficiente senão para salientar alguns aspectos mais importantes. Para que o leitor possa ter pelo menos um "aperitivo" do que propõem esses modelos, vamos destacar aqui três deles.
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Modelo de Fröhlich-Marshall-Zohar.

Herbert Fröhlich, físico especialista em supercondutividade a altas temperaturas, propôs, há bastante tempo, que seria possível ocorrerem estados quânticos coletivos em sistemas biológicos.

Existiriam efeitos vibracionais dentro das células correspondentes a radiação eletromagnética na faixa de microondas, resultantes de um fenômeno de coerência quântica biológica que teria origem em grandes quantidades de energia disponibilizadas por atividades metabólicas.

Com isso, ele sugeriu a possibilidade de que estados de coerência quântica de grande alcance, semelhantes aos observados em supercondutividade e em lasers, chamados de condensados de Bose-Einstein, poderiam existir mesmo a temperaturas tão altas como as características de sistemas biológicos.

I. Marshal (psiquiatra) e D. Zohar (física), tendo como preocupação básica o caráter unitário da consciência, encontraram na proposta de Fröhlich as propriedades necessárias de extensão espacial (não localidade) e capacidade para muitos estados se fundirem num todo único, não analisável, aspectos característicos dos fenômenos mentais.

Marshal se valeu, então, do sistema de fonons bombeados de Fröhlich para propor que certas proteínas neurais poderiam formar condensados de Bose-Einstein, dando origem aos fenômenos conscientes.
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Modelo de Eccles e Beck

Sir John Eccles, ganhador do prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1963 e autor, com Karl Popper, do livro The Self and Its Brain, propôs um modelo, posteriormente aperfeiçoado em parceria com Frederick Beck, físico teórico, pelo qual efeitos quânticos ocorreriam nos terminais sinápticos dos neurônios e seriam moduladores das funções cerebrais.

O mecanismo central estaria relacionado à exocitose, processo pelo qual as moléculas neurotransmissoras contidas em minúsculas vesículas são expelidas através da passagem sináptica entre neurônios.

Por esse modelo, a chegada de um impulso nervoso ao terminal de um axônio (prolongamento tubular através do qual os neurônios se comunicam) não induziria invariavelmente as vesículas a expelirem seus neurotransmissores através da sinapse, como se pensava.

Isso seria controlado por uma espécie de "gatilho quântico", associado a transferências de elétrons através de um fenômeno denominado tunelamento, que promoveria alterações conformacionais nas membranas controladoras do mecanismo de deliberação de neurotransmissores. Com isso, efeitos quânticos seriam os controladores efetivos de toda a dinâmica cerebral, embora não fique claro como é que tal mecanismo implicaria na emergência da consciência.
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Modelo de Hameroff-Penrose

Dois dos principais propositores da Consciência Quântica são Stuart Hameroff, médico, e Roger Penrose, físico-matemático de Oxford que atua na área de Cosmologia e Gravitação e foi ganhador do prêmio Wolf juntamente com Stephen Hawking.

Ao final da década de 80, Penrose lançou um livro muito instigante, A Mente Nova do Imperador, que causou sensação e foi o responsável por muito da discussão a respeito de consciência e efeitos quânticos que se seguiu. Nesse livro, ele elabora extensas discussões a respeito dos seguintes pontos:

· O pensamento humano não é algorítmico (é não-computacional);
· Os únicos processos não-algorítmicos no Universo são os processos quânticos;
· Não existe atualmente uma Física Quântica completa, mas está faltando uma Teoria Quântica da Gravitação;
· O advento dessa nova teoria seria o passaporte para se formular um modelo quântico para a consciência.

Anos mais tarde, Penrose, em parceria com Hameroff, formulou um modelo um pouco mais específico, procurando localizar as estruturas cerebrais onde ocorreriam os tais efeitos quânticos. Nesse modelo, eles principiam por correlacionar certas características da psique com atributos de sistemas quânticos. Por exemplo:

· A sensação de um self unitário (the binding problem) - isso é atribuído a coerência quântica e não-localidade;
· Livre arbítrio - decorrência de um processo randômico, não-determinístico; teria a ver com indeterminação quântica;
· Intuição - processamento não-algorítmico, computação via superposição quântica;
· Diferença e transição entre estados não-conscientes e consciência - colapso da função de onda.

A idéia deles é que a consciência poderia "emergir" como um estado quântico macroscópico a partir de um certo nível crítico de coerência de eventos acontecendo em certas estruturas subneurais, denominadas microtubulos, que compõem o esqueleto neuronal. Os ingredientes essenciais do modelo são os seguintes:

·Coerência quântica e auto-colapso da função de onda são essenciais para a emergência de consciência e isto acontece nos microtubulos;
·Tubulinas, subunidades dos microtubulos, são acopladas por eventos quânticos internos e interagem cooperativamente entre si;
· Deve ocorrer coerência quântica entre tubulinas através de um bombeamento de energia térmica e bioquímica, provavelmente a la Fröhlich;
· Durante o processamento pré-consciente, ocorre um processo de computação /superposição quântica nos microtubulos, até que um auto-colapso acontece em função de efeitos relacionados à Gravitação Quântica;
· O auto-colapso resulta em "estados clássicos" de tubulinas que então implementam uma determinada função neurofisiológica;
· Conexões via MAPs (microtubule-associated proteins) sintonizam e "orquestram" essas oscilações quânticas.
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Consciência Quântica ou Consciência Crítica?
Pelo seu caráter altamente especulativo, modelos como os aqui delineados acabam provocando fortemente o senso crítico de físicos e neurocientistas. Recentemente, Max Tegmark, de Princeton, publicou um trabalho em que ele mostra que os tempos de coerência quântica em situações como as aqui aventadas são extremamente pequenos, entre 10^-13 a 10^-20 segundos, quando os tempos característicos para processos neurais são da ordem de 10^-3 a 10^-1 segundos.

Hameroff e colaboradores contra-atacaram, afirmando que as estimativas de Tegmark não levaram em conta efeitos importantes que elevariam tais tempos de coerência para valores neurofisiologicamente relevantes.

Apesar de se tratarem de idéias bastante controversas, atualmente se procura estabelecer arranjos experimentais em condições de testar modelos como os aqui apresentados. Os leitores interessados poderão obter maiores informações no website
http://www.consciousness.arizona.edu/Aqueles, porém, que se encontram por demais perplexos com o que acabam de ler, talvez prefiram a sugestão abaixo:

Einstein e a Física Quântica

David B. Martinez

Warner Heisenberg ilustra seu Princípio da Incerteza apontando para baixo com a mão direita para indicar a localização de um elétron e apontando para cima com a outra mão para suas ondas, para indicar sua energia. Num determinado instante, quanto mais estamos certos sobre o momentum de um quantum, menos certeza temos de sua exata localização.

Neils Bohr acena com dois dedos para enfatizar a dualidade, natureza complementar da realidade. O quantum não observado é ao mesmo tempo uma onda e uma partícula, mas um determinado experimento pode mostrar apenas uma forma ou outra.
Bohr argumenta que as teorias sobre o universo devem incluir um fator que contabilize os efeitos do observador sobre determinada medição do quanta. Bohr e Heisenberg argumentam que predições na Mecânica Quântica são limitadas para descrições estatísticas do comportamento do grupo. Isso levou Einstein a declarar que não podia acreditar que Deus joga dados com o universo.

Albert Einstein aponta um dedo para cima, para indicar sua crença de que o universo pode ser descrito com uma equação de campo unificado. Einstein descobriu a relatividade do tempo e relação matemática entre energia e matéria.
Ele dedicou o resto de sua vida tentando formular uma teoria do campo unificado. Ainda que considerasse que devemos agora usar probabilidades para descrever eventos quânticos, Einstein expressou a esperança de que os cientistas do futuro encontrarão uma ordem oculta para a Mecânica Quântica.

Richard Feynman toca bongô, com diagramas de Feynman de partículas virtuais subindo como notas musicais. Ele inventou Quantum-Elétron-Dinâmica, o mais prático sistema para resolver problemas em Mecânica Quântica. Feynman renormalizou os infinitos que impediam as soluções exatas das equações quânticas.

O gato de Schodinger está piscando e roçando em Bohr. A mulher azul vergada sobre a Terra é Nut, a deusa egípcia do céu. Ela acaba de jogar dados atrás das costas de Einstein. Nut está dando a luz a chuvas de partículas elementares, que caem como cascatas sobre as borboletas do caos.

Traduzido do site de David B. Martinez
http://members.aol.com/elchato/

Total lunar eclipse

As imagens vivas da lua (e ocasionalmente dos planetas mais brilhantes) serão transmissão neste local sempre que possível. As mensagens serão afixadas no bate-papo de Astro do fórum do SPA (www.popastro.com) para informar quando eu estarei operando o telescópio. Ou o e-mail mim para juntar uma lista para receber um alerta do email de imagens pendentes de uma sessão da imagem latente é atualizado cada 20 segundos quando vivo (definição 640x480). Os instrumentos usaram-se (indicado na imagem da transmissão): refractor f/5/127mm f/11 Maksutov-Cassgrain/150mm f/10.5 newtonian/200mm f/10 SCT de 80mm. Todas as imagens fixadas usando um webcam de Philips ToUcam PCVC740K, no foco principal ou afocally.

http://www.lunarobservers.com/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

A Sentença Divina

Por Edgard Armond

Extraído de “Os Exilados da Capela”, obra de não-ficção, apresentada como “ensaio de reconstituição histórico-espiritual do mundo, realizada com auxílio de inspiração”, tendo como Guia Espiritual Entidade denominada Razin.

O Autor foi, por 27 anos ininterruptos, Secretário-geral da FEESP – Federação Espírita do Estado de São Paulo. Vale transcrever a epígrafe, pelo Guia Espiritual:
“Queiram ou não queiram os homens, com o tempo, a luz da verdade se fará nos quatro cantos do Mundo”.

Ia a meio o ciclo evolutivo da Terceira Raça, cujo núcleo mais importante e numeroso se situava na Lemúria quando, nas esferas espirituais, foi considerada a situação da Terra e resolvida a imigração para ela de populações de outros orbes mais adiantados, para que o homem planetário pudesse receber um poderoso estímulo e uma ajuda direta na sua árdua luta pela conquista da própria espiritualidade.

A escolha, como já dissemos, recaiu nos habitantes da Capela.

Eis como Emmanuel, o espírito de superior hierarquia, tão estreitamente vinculado agora ao movimento espiritual da Pátria do Evangelho, inicia a narrativa desse impressionante acontecimento:
“Há muitos milênios, um dos orbes do Cocheiro, que guarda muitas afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um, dos seus extraordinários ciclos evolutivos...Alguns milhões de espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e de virtudes...”
E, após outras considerações, acrescenta:
"As Grandes Comunidades Espirituais, diretoras do Cosmo deliberaram então, localizar aquelas entidades pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua”.

Dái-nos, pois, assim, Emmanuel, com estas revelações de tão singular natureza, as premissas preciosas de conhecimentos espirituais transcendentes, relativos à vida planetária – ­conhecimentos esses já de alguma forma focalizados pelo Codificador – e que abrem perspectivas novas e muito dilatadas à compreensão de acontecimentos históricos que, de outra forma – como aliás com muitos outros tem sucedido – permaneceriam na obscuridade ou, na melhor das hipóteses, não passariam de lendas.

Aliás, essa permuta de populações entre orbes afins de um mesmo sistema sideral, e mesmo de sistemas diferentes, ocorre periodicamente, sucedendo sempre a expurgos de caráter seletivo; como também é fenômeno que se enquadra nas leis gerais da justiça e da sabedoria divinas, porque vem permitir reajustamentos oportunos, retomadas de equilíbrio, harmonia e continuidade de avanços evolutivos para as comunidades de espíritos habitantes dos diferentes mundos.

Por outro lado é a misericórdia divina que se manifesta, possibilitando a reciprocidade do auxílio, a permuta de ajuda e de conforto, o exercício enfim, da fraternidade para todos os seres da criação. Os escolhidos, neste caso, foram os habitantes de Capela que, como já foi dito, deviam dali ser expurgado por terem-se tornado incompatíveis com os altos padrões de vida, moral já atingido pela evoluída humanidade daquele orbe.

Resolvida, pois, a transferência, os milhares de espíritos atingidos pela irrecorrível decisão foram notificados do seu novo destino e da necessidade de sua reencarnação em planeta inferior.

Reunidos no plano etéreo daquele orbe, foram postos na presença do Divino Mestre para receberem o estímulo da esperança e a palavra da Promessa, que lhes serviriam de consolação e de amparo nas trevas dos sofrimentos físicos e morais, que lhes estavam reservados por séculos.

Grandioso e comovedor foi então o espetáculo daquelas turbas de condenados, que colhiam os frutos dolorosos de seus desvarios, segundo a lei imutável da eterna justiça.
Eis como Emmanuel, no seu estilo severo e eloqüente, descreve a cena:

“Foi assim que Jesus recebeu, à luz do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes. Com a sua palavra sábia e compassiva exortou aquelas almas desventuradas à edificação da consciência pelo comprimento dos deveres de solidariedade e de amor, no esforço regenerador de si mesmos.
Mostrou-Ihes os campos de lutas que se desdobravam na Terra, envolvendo-os no halo bendito de sua misericórdia e de sua caridade sem limites. Abençoou-Ihes as lágrimas santificadoras, fazendo-Ihes sentir os sagrados triunfos do futuro e prometendo-Ihes a sua colaboração cotidiana e a sua vinda no porvir (sem destaque no original).
Aqueles seres desolados e aflitos, que deixavam atrás de si todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura, reincarnar-se-iam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. Por muitos séculos não veriam a suave luz de Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia”.

E assim a decisão irrevogável se cumpriu e os exilados, fechados seus olhos para os esplendores da vida feliz no seu mundo, foram arrojados na queda tormentosa, para de novo somente abri-los nas sombras escuras, de sofrimento e de morte, do novo "habitat" planetário.

Foram às coortes de Lúcifer que, avassaladas pelo orgulho e pela maldade, se precipitaram dos céus as Terras, que daí por diante passou a ser-lhes a morada purgatorial por tempo indefinido (sem destaque no original).

E após a queda, conduzida por entidades amorosas, auxiliares do Divino Pastor, foram os degredados reunidos no etéreo terrestre e agasalhados em uma colônia espiritual, acima da crosta, onde, durante algum tempo, permaneceriam em trabalhos de preparação e de adaptação para a futura vida a iniciar-se no novo ambiente planetário.

O colapso dos rapanui. - Pesquisas Iniciais

A praia de Anakena, provavelmente onde ocorreu a primeira colonização de Rapa Nui,
foi o local onde o autor conduziu suas escavações arqueológicas.
O colapso dos rapanui.
Ao contrário do que sugerem as teses vigentes sobre a extinção
dessa civilização no Pacífico Sul, foram roedores, e não humanos,
os grandes agentes da degradação ambiental na Ilha de Páscoa.
Todos os anos, milhares de turistas do mundo inteiro percorrem longas distâncias pelo Pacífico Sul para ver as famosas estátuas de pedra da Ilha da Páscoa. Desde 1722, quando os primeiros europeus ali chegaram, essas figuras megalíticas, os moais, intrigam visitantes. O interesse em saber como foram construídos e movidos levou a outra questão também enigmática: o que aconteceu às pessoas que os criaram?

De acordo com o relato corrente sobre o passado da ilha, os habitantes nativos - que se autodenominam rapanui e se referem à ilha como Rapa Nui - outrora formavam uma sociedade grande e próspera que entrou em colapso em conseqüência da degradação ambiental.

Segundo essa teoria, um pequeno grupo de colonizadores da Polinésia teria chegado entre os séculos IX e X. Trezentos anos depois, o aumento populacional acelerado e a obsessão em construir moais levaram a uma pressão cada vez maior no ambiente.
No final do século XVII, os rapanui haviam desmatado a ilha, o que resultou em guerras, fome e colapso cultural.

Jared Diamond, geógrafo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, usou os rapanui como parábola sobre os perigos da destruição ambiental. "Em apenas alguns séculos", escreveu em 1995, "os habitantes da Ilha de Páscoa liquidaram suas florestas, levaram suas plantas e animais à extinção, e viram sua complexa sociedade rumar para o caos e o canibalismo.

Estamos perto de seguir seu exemplo?" Em Colapso, publicado em 2005, Diamond descreveu Rapa Nui como "o exemplo mais claro de uma sociedade que se auto destruiu ao explorar demais os próprios recursos".

Dois elementos chave no relato de Diamond - que certamente não está sozinho ao descrever Rapa Nui como um conto sobre a moralidade ambiental - são o grande número de polinésios vivendo na ilha e sua tendência a derrubar árvores. Ao analisar estimativas sobre a população nativa, diz que não ficaria surpreso se excedesse 15 mil indivíduos em seu auge.

Uma vez derrubadas todas as árvores do grande grupo de palmeiras, seguiram-se "fome, declínio da população e canibalismo". Quando os europeus chegaram, no século XVIII, encontraram somente um pequeno vestígio dessa civilização.

Em minha primeira viagem a Rapa Nui esperava confirmar essas teses. Em vez disso, encontrei evidências que não se encaixavam na linha do tempo básica.

Quando examinei os dados de escavações arqueológicas disponíveis e alguns trabalhos similares realizados em outras ilhas do Pacífico, percebi que muito do que era atribuído à pré-história de Rapa Nui não passava de especulação.
Estou convencido, agora, de que simplesmente o colapso ambiental auto-induzido não explica a queda dos rapanui. Datações de carbono que fizemos e dados paleoambientais apontam para uma explicação diferente sobre o que aconteceu nessa pequena ilha. A história é mais complexa do que a comumente descrita.

Os primeiros colonizadores podem ter chegado muito depois do que se acreditava, e eles não viajavam sozinhos. Traziam galinhas e ratos, ambos utilizados como alimento. Mais importante é, no entanto, o que os ratos comiam.
Esses roedores prolíferos podem ter sido a principal causa da degradação ambiental. Usar os rapanui como exemplo de "ecocídio", como Diamond o chamou, torna a narrativa atraente, mas a realidade da história trágica da ilha não é menos significativa.

O colapso dos rapanui. - Pesquisas Iniciais

Pesquisas Iniciais

Mais de 3 mil km de oceano separam Rapa Nui da América do Sul, o continente mais próximo. A ilha habitável menos distante é Pitcairn, 2 mil km a oeste.

Rapa Nui tem apenas cerca de 170 km, e fica um pouco ao sul dos trópicos, o que significa que seu clima é menos convidativo que o de muitas ilhas tropicais do Pacífico. Ventos fortes e imensas oscilações no índice pluviométrico dificultam a agricultura.

A flora e a fauna são limitadas. Além de galinhas e ratos, há poucos vertebrados terrestres. Muitas das espécies de pássaros que já habitaram a ilha estão agora extintas no local.
Grandes palmeiras do gênero Jubaea cobriam a maior parte da ilha, mas elas, também, desapareceram. Pesquisa recente encontrou apenas 48 tipos de plantas nativas, incluindo 14 introduzidas pelos rapanui.

Relatos de visitantes europeus foram usados para argumentar que, na época da descoberta européia, a população nativa estava em declínio, mas eles às vezes se contradizem. Em seu registro, o explorador holandês Jacob Roggeveen, que levou os primeiros europeus a aportar ali, retratou a ilha como empobrecida e sem árvores.

No entanto, depois de partirem, Roggeveen e os comandantes de seus três navios a descreveram como "extraordinariamente fértil, com produção de banana, batata, cana-de-açúcar de espessura notável e muitos outros frutos da terra.

Essa nação, no que diz respeito a seu solo rico e bom clima poderia ser transformada em um Paraíso terrestre, caso trabalhada e cultivada de forma adequada". Um dos comandantes de Roggeveen escreveu, mais tarde, que havia avistado "extensões inteiras de florestas" a distância.

Um visitante do século XIX, J. L. Palmer, declarou, no Journal of the Royal Geographic Society, que havia visto "troncos de grandes árvores, Edwardisia, coqueiros e hibiscos". Os coqueiros foram introduzidos recentemente na ilha, portanto Palmer deve ter visto a hoje extinta palmeira Jubaea.

É claro que os registros históricos têm lacunas. Há tempos pesquisadores tentam dar respostas mais definitivas sobre a pré-história da Ilha de Páscoa, mas não raro contribuem mais para a confusão. O explorador e antropólogo norueguês Thor Heyerdahl, por exemplo, visitou Rapa Nui em 1950 e despertou amplo interesse sobre os moais e as grandes fundações de pedra, ou ahus, sobre as quais com freqüência estão assentados. Mas também ajudou a difundir conclusões errôneas.

Heyerdahl acreditava que as ilhas polinésias, incluindo Rapa Nui, haviam sido colonizadas por viajantes da América do Sul, e não do oeste do Pacífico. Em 1947, ele iniciou a famosa expedição Kon-Tiki, navegando numa pequena embarcação feita de madeira e materiais básicos, do Peru até as ilhas Tuamotu, a fim de provar que era possível que povos pré-históricos tivessem feito a viagem.

Em 1955, comandou uma expedição arqueológica a Rapa Nui. E propôs que a ilha havia sido colonizada a partir do leste, apontando semelhanças entre suas estátuas e trabalhos em pedra sul-americanos. Evidências lingüísticas e genéticas estabeleceram com solidez a origem polinésia dos rapanui, mas as conclusões feitas por Heyerdahl ainda anuviam os relatos arqueológicos.

Uma amostra de carvão descoberta na península Poike - que marca, em princípio, o local de uma antiga fornalha - foi datada como sendo de 400 d.C. Aliada à idéia então prevalecente de que a língua dos rapanui indicava muitos séculos de isolamento de outros grupos polinésios, a datação em carbono dessa amostra levou especialistas a concluir que a colonização humana começou ali por volta do século V.

Mais recentemente, no entanto, alguns arqueólogos rejeitaram essa datação, enquanto outros questionaram se as evidências lingüísticas refletem o isolamento dos rapanui em vez de uma colonização anterior.
Essa fase posterior da pesquisa passou a indicar a data de 800-900 d.C. como provavelmente a época mais anterior da colonização humana no local. Apesar de os arqueólogos realmente terem concentrado seus esforços em estabelecer exatamente quando a ilha foi colonizada, eles dedicaram muito de seu trabalho ao estudo das mudanças que esses colonizadores trouxeram, em especial o desmatamento.

A equipe de Heyerdahl colheu amostras de pólen mostrando que as palmeiras já haviam sido abundantes na ilha. Durante as escavações, características indicativas de onde as raízes haviam crescido em alguma época foram encontradas, revelando uma vegetação mais alastrada no passado e apontando para a possibilidade de que os humanos haviam causado a perda de cobertura florestal.

John Flenley forneceu grande parte das evidências mais recentes detalhadas nessa área. No final da década de 70 e na de 80, ele coletou e analisou depósitos de sedimentos de três crateras: Rano Aroi, próxima do centro da ilha; Rano Raraku, adjacente à pedreira onde muitas das estátuas foram esculpidas; e Rano Kau, localizada na ponta sudoeste da ilha. Cada uma dessas depressões tem um lago raso, que coleta sedimentos levados pelo vento de outras regiões da ilha.

A melhor evidência veio de um núcleo de 10,5 metros de Rano Kau, mostrando que durante milhares de anos a ilha havia sido arborizada antes de as árvores desaparecerem, processo ocorrido entre 800 e 1500 d.C. No entanto, mais recentemente a validade dessas datas - derivadas da datação por radiocarbono de amostras de sedimentos dos lagos - foi questionada.

Em 2004, Kevin Butler, Christine A. Prior e Flenley mostraram que as amostras volumosas de sedimento de locais como esses com freqüência contêm um pouco de carbono consideravelmente mais antigo que a data de depósito.
Isso significa que a cronologia proposta por Flenley poderia indicar que o desmatamento induzido por humanos fosse centenas de anos mais antigo do que realmente é.

Outros trabalhos arqueológicos e paleoambientais recentes desafiaram hipóteses que vigoraram por muito tempo sobre a pré-história de Rapa Nui. Catherine Orliac, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, realizou um estudo notável com 32.960 espécies de plantas.

Além de identificar 14 organismos não identificados antes na ilha, ela mostrou que a principal fonte de combustível dos rapanui mudou de maneira drástica. Entre 1300 e 1650, eles queimaram madeira de árvores, mas usaram capim, samambaias e plantas similares para obter combustível a partir daquele ponto.

No entanto, Orliac argumentou que pelo menos dez espécies de vegetação florestal podem ter persistido até os europeus começarem a visitar a ilha. Em outro estudo, Orliac examinou resíduos da casca dura que envolve a semente da palmeira Jubaea.

Esses exemplares que foram carbonizados, roídos por ratos ou encontrados associados a materiais humanos forneceram evidências da ocupação humana da ilha.

Ela datou vários deles e descobriu que eram posteriores a 1250.Andréas Mieth e Hans-Rudolf Bork, da Universidade Christian-Albrecht em Kiel, Alemanha, estudaram o processo de desmatamento em Rapa Nui e concluíram que as palmeiras Jubaea haviam coberto a maior parte da ilha.

Segundo eles, o desmatamento começou por volta de 1280. Os rapanui abandonaram em grande parte a península nos 200 anos seguintes, mas se assentaram novamente em algumas áreas, entre 1500 e 1675. Em 2003, o geólogo Dan Mann e vários colegas obtiveram datação por carbono de pedaços de carvão encontrados em solos de diversas localidades da ilha.

Também documentaram episódios remotos de erosão severa que, de acordo com as medições de carbono, começaram logo depois de 1200. O estudo deles, como o de Mieth e Bork, aponta que o desmatamento se deu entre 1200 e 1650, sem indícios de impacto humano anterior a esse período.

Tanto a equipe de Mann quanto Mieth e Bork conciliaram suas descobertas com trabalhos anteriores ao argumentar que a população, durante os séculos anteriores a 1200, deve ter sido pequena ou temporária.
Foi apenas quando o número de habitantes permanente cresceu que os indícios de presença humana se tornaram claros no registro paleoambiental.Mas esse cenário inclui várias suposições questionáveis. Ele exige uma pequena população colonizadora com taxa de crescimento lenta e pouco impacto ecológico.

Depois de nossa própria pesquisa em Rapa Nui, começamos a nos perguntar se a escassez de evidências acerca da presença humana anterior a 1200 deveria ser levada em consideração por seu valor nominal - talvez a ilha não tivesse sido realmente colonizada tão cedo quanto se acreditava.

O colapso dos rapanui. -Datação é Tudo

Datação é Tudo

Ao visitar rapa nui pela primeira vez, em maio de 2000, não tinha idéia de que acabaria questionando o que acreditava saber acerca do passado da ilha. Na realidade, viajava como turista, não como arqueólogo. Mas fui convidado por Sergio Rapu, governador nativo da ilha e ex-aluno meu - ele estudou arqueologia na Universidade do Havaí - a fazer pesquisas na ilha. Previa que meu trabalho e de meus alunos, iniciado em agosto de 2000, ajudaria a dar os toques finais em uma história bem estabelecida. Mas, quando comecei a rever dados de pesquisa arqueológica, estudos sobre os moais e evidências sobre mudanças ambientais, percebi que havia uma série de lacunas no que se sabia sobre Rapa Nui, e passei a ficar cada vez mais cético sobre tudo dito acerca da pré-história da ilha.

Nos anos seguintes, fizemos trabalho de campo durante um ou dois meses por ano. Meu colega Carl P. Lipo, arqueólogo da Universidade Estadual da Califórnia, juntou-se ao grupo e me apresentou ao potencial das imagens por satélite, que usamos para explorar características como as antigas estradas pelas quais os rapanui transportavam os moais da pedreira de Rano Raraku para qualquer canto da ilha. Seguir o alinhamento das rotas também resultou na documentação de vários moais até então não registrados.

Em 2004, começamos novas escavações em Anakena. Essa praia de areia branca teria sido o local mais convidativo para que os primeiros colonizadores ancorassem seus barcos (grande parte da costa é composta por despenhadeiros ou penhascos rochosos).
Por isso, a maioria dos antropólogos suspeita que as primeiras colônias tenham sido estabelecidas ao redor de Anakena. Pretendíamos estudar subsistência e mudança ambiental, não cronologia básica, que acreditávamos já estar estabelecida.A estratificação magnificamente inalterada da areia provou ser o sonho dos arqueólogos.
A integridade das camadas seria útil para determinar quando as coisas haviam acontecido. Desenterramos fragmentos abundantes de carvão (indicando o uso de fogo), ossos (incluindo os de ratos polinésios, uma espécie que chegou com os colonos) e fragmentos de obsidiana lascada (sinal claro de trabalho manual humano) nos 3 a 5 cm de barro subjacente.

Abaixo, não encontramos nada que sugerisse atividade humana. Ao contrário a argila antiga era enigmática, com vazios irregulares - locais onde o solo uma vez se moldara ao redor das raízes das árvores de palmeira Jubaea.
Sem dúvida havíamos encontrado a camada de material mais antigo relacionado a humanos em Anakena, e presumindo que este fosse o local das primeiras colônias da ilha, estávamos em excelente posição para determinar a data da colonização inicial.

Portanto, fiquei decepcionado quando o laboratório que faz a datação por carbono dessas amostras nos enviou um e-mail comunicando que as datas mais antigas eram de apenas 800 anos atrás, o que significava que a ocupação começara por volta de 1200.

As datas das camadas mais próximas à superfície eram progressivamente mais recentes, o que não é consistente com a possibilidade de que de alguma forma nossas amostras tivessem sido contaminadas por carbono moderno.

Realmente não havia como explicar esses números, pelo menos não pelo modelo convencional aceito de desenvolvimento de Rapa Nui. Quando a cópia em papel do relatório chegou, algumas semanas depois, examinei os dados de novo. Quanto mais analisava, mais parecia que nossos resultados não eram o problema.

Conversei com Atholl Anderson, da Universidade Nacional Australiana. Ele havia feito uma triagem cuidadosa de datações por carbono da Nova Zelândia e concluído que os primeiros colonos chegaram lá por volta de 1200, várias centenas de anos depois do que os arqueólogos acreditavam no início.

A reação às suas idéias foi bastante fria no começo, mas o tempo e evidências adicionais provaram que estava correto. Com essa experiência nas costas, Anderson me aconselhou a manter a cabeça aberta e confiar nos meus dados mais do que em quaisquer idéias anteriores.

Mas a cronologia tradicional estaria simplesmente errada? Lipo e eu analisamos mais a fundo as evidências sobre a colonização humana inicial. Avaliamos 45 datações por carbono publicadas indicando presença humana mais de 750 anos atrás utilizando um protocolo de "higiene cronométrico".

Rejeitamos datas medidas com base em de fontes não confiáveis, como organismos marinhos, que exigem correções para o carbono mais antigo vindo do ambiente oceânico. Também desconsideramos datas únicas que não haviam sido confirmadas por uma segunda datação do mesmo contexto arqueológico.

Utilizar somente datas emparelhadas ajuda a assegurar a confiabilidade dos dados. Ficamos com somente nove datas aceitáveis. Com essa seleção, evidências sobre a primeira ocupação ocorrendo por volta do século IX simplesmente ruíram.

Apesar de os nossos resultados não se encaixarem na data de colonização aceita para Rapa Nui, eles se ajustavam à cronologia do desmatamento que Orliac, Mann, e Mieth e Bork haviam desenvolvido.
É preciso simplesmente descartar a idéia de que uma população pequena e temporária ocupou a ilha por séculos. Ao contrário, postulamos que o impacto ambiental foi disseminado desde o começo.

A noção de que os humanos não chegaram a Rapa Nui até cerca de 1200 não foi a única coisa que me fez repensar minhas suposições acerca da ilha. Pesquisas feitas em outras ilhas do Pacífico fornecem um paralelo atraente e uma possível explicação para o dano ambiental em Rapa Nui.

O colapso dos rapanui. - Ratos no Paraíso

Ratos no Paraíso

Durante milhares de anos, a maior parte de Rapa Nui esteve coberta de palmeiras. Registros de pólen mostram que a Jubaea se estabeleceu lá há pelo menos 35 mil anos e sobreviveu a várias mudanças climáticas e ambientais. Mas, na época em que Roggeveen chegou, em 1722, a maior parte da floresta havia desaparecido.

Não se trata de uma observação nova o fato de que virtualmente todas as cascas de sementes de palmeira encontradas em cavernas ou escavações arqueológicas de Rapa Nui mostram sinais de terem sido roídas por ratos, mas o impacto desses ratos no destino da ilha pode ter sido subestimado. Evidências de outros locais no Pacífico revelam que com freqüência esses animais contribuíram para o desmatamento, e eles podem muito bem ter tido um papel importante na degradação ambiental de Rapa Nui. O arqueólogo J. Stephen Athens, do Instituto Internacional de Pesquisas Arqueo-lógicas, fez escavações na ilha de Oahu, Havaí, e descobriu que o desmatamento da planície Ewa ocorreu em grande parte entre 900 e 1100, mas que a primeira evidência de presença humana nessa parte da ilha só aconteceu por volta de 1250.

Não havia explicações climáticas para o desaparecimento das palmeiras, mas havia indícios de que o rato da Polinésia (Rattus exulans), introduzido pelos primeiros colonizadores humanos, estava presente na área por volta de 900. Athens mostrou que era bastante provável que os ratos tivessem desmatado grandes áreas de Oahu.

Paleobotânicas demonstraram o efeito destrutivo de ratos na vegetação nativa em muitas outras ilhas, mesmo naquelas ecologicamente diversas como a Nova Zelândia. Em áreas das quais eles são removidos, com freqüência a vegetação se recupera rapidamente.

E na ilha Nihoa, no noroeste das ilhas havaianas, onde não há evidência de que os ratos jamais tenham se estabelecido, a vegetação nativa ainda sobrevive, apesar dos assentamentos humanos pré-históricos.

Como clandestinos ou fonte de proteína para os viajantes polinésios, os ratos teriam encontrado um ambiente acolhedor em Rapa Nui - um fornecimento quase ilimitado de alimento de alta qualidade e, a não ser pelos humanos, nenhum predador. Em um cenário tão ideal, os roedores podem se reproduzir com tanta rapidez que sua população teria dobrado a cada seis ou sete semanas.

Um único casal poderia, dessa forma, gerar uma população de quase 17 milhões em pouco mais de três anos. Na década de 70, no atol de Kure, nas ilhas havaianas, a uma latitude similar à de Rapa Nui, mas com um fornecimento menor de alimento, registrou-se que a densidade populacional do rato polinésio teria alcançado 182 por m2. Em Rapa Nui, isso equivaleria a uma população de 1,9 milhão de animais. A uma densidade de 300 por m2, o que não seria desmedido, dada a abundância de alimento, a população de ratos pode ter excedido 3,1 milhões.

As evidências de outras partes do Pacífico tornam difícil acreditar que os ratos não tenham causado uma degradação ambiental rápida e ampla. Mas ainda há a questão de seu efeito em relação às mudanças causadas por humanos, que cortavam árvores para vários fins e praticavam agricultura de corte e queima. Acredito haver evidências substanciais de que foram roedores, mais que humanos, que levaram ao desmatamento.

Nossas escavações em Anakena, assim como estudos arqueológicos anteriores, encontraram milhares de ossos de rato. Ao que tudo indica, a população de ratos polinésios cresceu com rapidez, e decaiu mais recentemente antes de se extinguir face à competição de espécies de rato introduzidas por europeus.

Quase todas as cascas de semente de palmeira descobertas na ilha mostram sinais de terem sido roídas, sugerindo que esses animais que já foram onipresentes afetaram a capacidade de reprodução das palmeiras Jubaea. Motivos para considerar os ratos mais culpados que os humanos também são revelados pela análise de sedimentos obtidos em Ranu Kau que, como as evidências do Havaí, parecem indicar que a floresta decaiu (deixando menos pólen no sedimento) antes do uso extensivo de fogo pelas pessoas.

Quando a segunda rodada de resultado por carbono chegou, um quadro completo da pré-história de Rapa Nui começava a se formar. Os primeiros colonizadores chegaram de outras ilhas da Polinésia por volta de 1200. A quantidade deles aumentou rapidamente, talvez a um ritmo de 3% ao ano, o que seria similar ao rápido crescimento de outros locais no Pacífico.

Na ilha Pitcairn, por exemplo, a população cresceu 3,4% por ano depois da chegada dos amotinados do Bounty em 1790. Em Rapa Nui, um crescimento anual de 3% significaria que uma população de 50 colonos teria aumentado para quase 1.000 em um século.

O número de roedores teria explodido com mais velocidade ainda, e a combinação de humanos cortando árvores e ratos comendo as sementes teria levado a um rápido desmatamento. Portanto, na minha opinião, não houve um período longo durante o qual a população humana viveu em algum tipo de equilíbrio idílico com o frágil ambiente.

Também parece que os habitantes da ilha começaram a construir moais e ahus logo depois de chegar ali. Por volta de 1350, a população provavelmente chegou ao máximo de cerca de 3 mil pessoas, e permaneceu estável até a chegada dos europeus. As limitações ambientais de Rapa Nui teriam evitado que a população crescesse muito mais.

Em 1722, a maioria das árvores da ilha já tinha sumido, mas o desmatamento não precipitou o colapso da sociedade, como Diamond e outros argumentaram. Não existem provas confiáveis de que a população da ilha tenha alcançado 15 mil pessoas ou mais, e a verdadeira queda dos rapanui foi resultado não de disputas internas, mas do contato com os europeus.

Quando Roggeveen desembarcou no litoral de Rapa Nui, poucos dias depois da Páscoa (daí o nome da ilha), ele levou consigo mais de 100 de seus homens armados com mosquetes, pistolas e cutelos. Antes de avançar muito, Roggeveen ouviu disparos vindos da retaguarda.

Ele se virou e viu dez ou 12 habitantes mortos e muitos outros feridos. Seus marujos afirmaram que alguns dos rapanui haviam feito gestos ameaçadores. Qualquer que tenha sido a provocação, o resultado não foi de bom agouro para os habitantes da ilha.

Doenças trazidas de fora, conflitos com invasores europeus e escravidão seguiram-se durante os 150 anos seguintes, e essas foram as principais causas do colapso. No começo da década de 1860, mais de mil rapanui foram levados da ilha como escravos e, no final da década seguinte, o número de habitantes nativos chegava somente a cerca de 100. Em 1888, a ilha foi anexada ao Chile. Atualmente permanece como parte daquele país.

Na década de 30, o etnógrafo francês Alfred Métraux visitou a ilha. Mais tarde descreveu o fim de Rapa Nui como "uma das atrocidades mais medonhas cometidas por homens brancos nos Mares do Sul". Foi genocídio, não ecocídio, o causador do fim dos rapanui. Não ocorreu uma catástrofe ecológica em Rapa Nui, pois ela foi resultado de vários fatores, não somente de miopia humana.

Acredito que o mundo enfrente, hoje, uma crise ambiental global sem precedentes, e compreendo a utilidade de exemplos históricos sobre as armadilhas da destruição ambiental. Portanto, foi com certa inquietação que concluí que Rapa Nui não fornece tal exemplo.

Mas, como cientista, não posso ignorar os problemas encontrados na narrativa aceita sobre a pré-história da ilha. Erros ou exageros nos argumentos para a proteção do ambiente somente levam a respostas simplistas ao extremo e prejudicam a causa do ambientalismo. No final, acabaremos nos perguntando por que nossas respostas simples não foram suficientes para fazer alguma diferença na confrontação dos problemas atuais.

Os ecossistemas são complexos, e há necessidade premente de compreendê-los melhor. Com certeza o papel dos roedores em Rapa Nui mostra o impacto potencialmente devastador, e com freqüência inesperado, de espécies invasoras. Espero podermos continuar a explorar o que aconteceu em Rapa Nui e a aprender qualquer que seja a lição que essa ilha remota tem a nos ensinar.

Cientistas solucionam mistério do ciclo do nitrogênio...


Cientistas solucionam mistério do ciclo do nitrogênio, nutriente que sustenta a vida.
David Biello.

Locais onde ocorrem transformações no nitrogênio essenciais para a vida na Terra são finalmente descobertos De todos os ciclos dos elementos da Terra, o do nitrogênio deve ser o mais complexo e custoso.

Afinal, é preciso muita energia para converter as moléculas de nitrogênio gasoso que formam quase 80% da atmosfera - compostas por dois átomos desse elemento - em compostos utilizáveis (o mais freqüente é o nitrato, formado por um átomo de nitrogênio ligado a três de oxigênio).

As bactérias conhecidas em termos gerais como diazotróficas podem realizar essa façanha com a ajuda de uma enzima especial e um suprimento de ferro (na indústria, utiliza-se alta temperatura e pressão). A fixação do nitrogênio - como o processo é conhecido - impõe um limite ao crescimento das plantas.

Além disso, seus produtos são nutrientes essenciais para todas as formas de vida (ou seja, a maioria delas não os produz e tem de obtê-los através da alimentação). Apesar disso, esse ciclo crucial permanece pouco compreendido.

"Não sabemos o que acontece na realidade", diz o biogeoquímico Curtis Deutsch, da Universidade de Washington, em Seattle. "Na verdade, desconhecemos quais fatores ambientais governam a velocidade ou a distribuição do processo".

Deutsch e seus colegas tentam reparar isso estudando a fixação do nitrogênio nos oceanos. Com esse objetivo, eles usaram modelos de circulação global mostrando como as águas do oceano se misturam, assim como sinais químicos na água que revelam onde é provável que esteja ocorrendo a fixação do nitrogênio, de acordo com o artigo deles na Nature de 11 de janeiro.

Ao mesmo tempo em que as bactérias diazotróficas fixam nitrogênio, outros microorganismos mais antigos atuam em áreas de baixa oxigenação, tais como sedimentos ou zonas mortas, para transformar o nitrogênio de volta no gás inerte que forma a maior parte de nossa atmosfera.

Especificamente, os processos opostos de fixação e denitrificação influenciam a proporção global entre nitrato e fosfato (outro nutriente) na água.
Onde o nitrato é produzido por fixação, a proporção sobe acima do normal à medida que as bactérias diazotróficas consomem fosfato e liberam nitrato, enquanto a denitrificação remove o nitrato sem causar impacto nos níveis de fosfato - portanto, reduzindo sua proporção.

Os cientistas determinaram que as áreas de fixação do nitrogênio ficam perto das zonas nas quais o oxigênio se encontra em seu mínimo e a denitrificação pode ocorrer; eles chegaram a essa conclusão ao cruzar medições dos níveis de nitrato e fosfato ao redor dos oceanos do planeta (coletadas por cientistas ao longo de décadas) com um modelo das correntes oceânicas.

"Uma análise das observações dos nutrientes com um modelo da circulação dos oceanos foi usada para inferir que a fixação era a responsável pela mudança nos nutrientes ao longo das vias de circulação oceânica", observa o geoquímico Jorge Sarmiento, da Universidade de Princeton.
Essa evidência vai contra estudos anteriores do próprio Sarmiento, que argumentava que a fixação de nitrogênio ocorria predominantemente no Atlântico Norte, em razão da poeira rica em ferro dos continentes daquela parte do globo.

Mas ela ganha respaldo de outros estudos, como um mapa de satélite mostrando a multiplicação de um microorganismo que fixa nitrogênio - a cianobactéria Trichodesmium - e pesquisas envolvendo diversos isótopos de nitrogênio no nitrato e culturas de laboratório de bactérias fixadoras de nitrogênio que mostram que os minúsculos organismos fazem seu trabalho mesmo quando cercados por concentrações relativamente altas de nitratos.

Uma peça-chave de evidência, entretanto, permanece ausente: medições reais de fixação que ocorrem nesses pontos do Oceano Pacífico. "A comunidade científica aceitará isso com muito mais facilidade se houver evidência biológica real, se alguém medir diretamente", observa Angela Knapp, geoquímica marinha da Universidade do Sul da Califórnia.

Uma peça-chave de evidência, entretanto, permanece ausente: medições reais de fixação que ocorrem nesses pontos do Oceano Pacífico. "A comunidade científica aceitará isso com muito mais facilidade se houver evidência biológica real, se alguém medir diretamente", observa Angela Knapp, geoquímica marinha da Universidade do Sul da Califórnia.

Além disso, ainda não se sabe onde as bactérias que fixam nitrogênio no Pacífico obteriam o ferro necessário. "O suprimento de ferro proveniente de baixo (das águas ricas em nutrientes) combinado com qualquer que seja a quantidade de ferro fornecida pela poeira através da atmosfera parece ser adequado", afirma Sarmiento.

Os locais exatos onde ocorre um ciclo fundamental podem ter sido encontrados, mas com eles surgiram inúmeros outros mistérios.

Pesquisadores usam erupção vulcânica como laboratório climático.


Pesquisadores usam erupção vulcânica como laboratório climático.
David Biello

Vestígios da erupção do monte Pinatubo, em 1991, ainda estão nos céus. Eles ajudam a decifrar o funcionamento do clima global.

O clima da Terra - componente crítico da regulação de calor do planeta - não pode ser reproduzido em laboratório. Para entender como ele funciona, portanto, os cientistas precisam confiar em "experimentos naturais", ou eventos naturais que podem ser usados como fontes de dados para pesquisa.

Alguns desses eventos tomam forma apocalíptica, como a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em junho de 1991, que lançou 10 km³ de cinzas, gases e outros materiais a grande altitude. Ao pesquisar como essa erupção afetou o clima global - e determinar como rastrear suas marcas em outras formas de registro - os cientistas transformaram a catástrofe em instrumento para ampliar o conhecimento.

"O grande problema com o clima - e tentar estudá-lo - é que não se pode brincar com ele no laboratório", diz Joanna Futyan, climatologista da Universidade Columbia. "Tentamos usar esse evento abrupto como experimento natural: aconteceu algo extraordinário e pode-se observar como a atmosfera responde a isso".

Futyan e o físico John Harries, do Imperial College de Londres, analisaram como a umidade atmosférica, a temperatura e a energia radiante do planeta - diferença entre a energia do sol absorvida pela Terra e a irradiada de volta para o espaço - responderam à erupção.

O espectro dessa energia enviada de volta para o espaço a partir da superfície (medido via satélite) mudou nos últimos 30 anos como resultado do aquecimento global, mas a velocidade e a magnitude dessa mudança permanecem difíceis de ser medidas e se baseiam numa série de processos atmosféricos, como a quantidade de vapor d´água.

A resposta da atmosfera à erupção do Pinatubo revela que esse sistema reage rapidamente. Os aerossóis de sulfato expelidos pelo vulcão, que bloqueiam a luz solar, resfriaram o planeta em quatro meses. Em seis meses, o planeta irradiou 2,6 watts /m² menos calor para o espaço do que antes da erupção.

Como resultado, a umidade caiu, mas de forma lenta, e no fim de 1992 o clima atingiu mais uma vez o equilíbrio, escreveram os pesquisadores na Geophysical Research Letters de 2 de janeiro. "Pelas observações do Pinatubo, o fluxo líquido [de energia] voltou ao equilíbrio rapidamente", diz Futyan. O Pinatubo também deixou sua marca nas condições do tempo.
Quando o vulcão entrou em erupção, ele enviou dióxido de enxofre para a atmosfera. Um certo comprimento de onda de luz ultravioleta transformou parte dos átomos de enxofre nessas moléculas num em um isótopo mais leve - a assinatura química de erupções estratosféricas como essa.

Ao cair de volta na superfície, o sulfato contendo essa proporção entre isótopos peculiar depositou-se em áreas desertas, como a camada de neve da Antártida. O químico Mark Thiemens, da Universidade da Califórnia em San Diego, e sua equipe escavaram 30 toneladas de neve em busca de um registro isotópico como esse, que já foi observado em camadas geológicas antigas da Terra.

Tanto o Pinatubo como seu predecessor - o Monte Agung, que entrou em erupção em 1963 - deixaram traços desse tipo na neve, enquanto erupções de menor altitude geraram marcas diferentes, revelam Thiemens e sua equipe na revista Science de 5 de janeiro.

A compreensão da química resultante de vários tipos de erupção tornará possível extrapolar o registro vulcânico e sua influência sobre o clima para tempos passados.
Os efeitos de erupções catastróficas como a do Pinatubo podem ser transitórios, mas fornecem uma imagem de como o clima pode responder a outros constrangimentos, como as emissões humanas dos gases do efeito estufa.

Eles também ajudam a avaliar como esse complexo sistema pode reagir a tentativas humanas de reparar conseqüências catastróficas de uma mudança climática como essa - como injetar aerossóis de sulfato nos céus, como proposto pelo químico e Prêmio Nobel Paul Crutzen. "É uma maneira quantitativa de ver quão sensível a estratosfera é às perturbações", observa Thiemens. "A natureza faz alguns dos experimentos para você."